Mostrar mensagens com a etiqueta definitivamente. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta definitivamente. Mostrar todas as mensagens

4.8.09

Só pode ser paixão


Dois concertos em Portugal em anos consecutivos, num retorno fulgurante aos palcos. O músico regressa hoje a Lisboa: agradeçamos o seu saber decidido
Cohen e o charme criativo que até hoje congrega os seus apaixonados
É certeza inabalável - como as construídas apenas pelos mitos - que Leonard Cohen nunca precisaria de procurar razões para regressar aos palcos. As descrições mais habituais do canadiano começam com odes a "um dos mais enigmáticos compositores da história da música popular" e seguem sempre o caminho das vénias prestadas pelos que, ainda hoje, o têm como exemplo maior da poesia cantada. Leonard Cohen actua hoje em Lisboa (Pavilhão Atlântico, 21h00, bilhetes entre os 30 e os 75 euros), depois de ter passado por Portugal em 2008, o ano do seu retorno, 15 anos depois da última digressão.
Um reencontro que, apesar de tudo, exigiu ao próprio Cohen a procura de motivos para acontecer - ele que se tinha como "há muito esquecido pelos fãs". Assim o afirmou em entrevista ao "The New York Times", já este ano, ao recordar os anos de insistência do seu manager. Se desculpas fossem necessárias, Leonard Cohen encontrou-as:
Arte entre finanças A história foi uma e outra vez motivo de notícia e Cohen nunca o negou: o desvio financeiro do seu antigo manager, Kelley Lynch (quase quatro milhões de euros), teve a ingrata responsabilidade de mostrar que a sobrevivência não se consegue fazer apenas de brilhantismo poético, não se sustenta pela voz, nem que esta carregue em si toda a personalidade de quem canta. A edição de "The Book of Longing" (música escrita por Philip Glass com base nos poemas de Cohen) antecipou um dos regressos mais aclamados dos anos mais recentes - um reconhecimento sem carimbo geracional, que viajou dos teatros dos EUA ao lamaçal de Glastonbury.
Fé e devoção A educação recebeu-a em ambiente religioso, no seio de uma família de tradições judaicas. Regras e dogmas transportados para um universo de romance, de sedução. Fosse Leonard Cohen conhecedor do português e diria a palavra "saudade", tarde sim, tarde não. O eterno questionamento pessoal levou-o a uma procura constante, que, no final da década de 90, encontrou expressão maior no refúgio de um templo budista. Ainda assim, um novo século para as certezas de sempre: as despedidas e os desejos mal escondidos, tudo em forma de canção, voltaram a ser, como sempre, a expressão maior da religiosidade de Leonard Cohen. E a vida on the road tornar-se-ia, mais uma vez, na mais concreta das experiências de desprezo pelo excesso, de recusa face aos pecados capitais. Cohen regressou como penitente, com os refrães como orações.
Sucesso duradouro 2008, ano de todos os recordes para Hallelujah, uma das mais populares canções de Leonard Cohen. A geração que a descobriu com Jeff Buckley (em "Grace", 1994) ou, mais recentemente, com Rufus Wainwright, rendeu-se à sua recuperação em programas de sucesso instantâneo, como o "American Idol". Jason Castro e Kate Voegle facturaram milhões e esclareceram o artista responsável por tal êxito: a criatividade que desde sempre o acompanha é tão relevante hoje como o foi em 1968, com a edição de "Songs of Leonard Cohen". Deixando-se rodear de charme e honestidade, descobriu na febre comercial um renovado encontro com o amor próprio. Para o comprovar gravou "Live in London", documentando o sentimento frenético de quem se voltou a deixar encantar pelos aplausos.
Tempos modernos Observando contemporâneos seus, ainda e sempre desafiantes, Leonard Cohen descobriu na actualidade novas paixões. Este é o homem que dá entrevistas de computador no colo e biblioteca iTunes em pleno funcionamento, que se orgulha de revelar o seu novo registo em streaming na internet. E que, do alto da sua classe - consciente dos 74 anos que lhe embalam a sabedoria como a poucos - o tornam tão cativante como sempre. Diferente nos seus propósitos, talvez, mas decidido a deixar o seu legado perene e obrigatório. E esse futuro em forma de herança é também um objectivo a atingir.

perdoem a insistência...